sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Parada gay (Revista Veja em 14/11/2012)


 “O fato é que, de tanto insistirem que os homossexuais devem ser tratados como  uma  categoria diferente de cidadãos, merecedora de mais e mais direitos, ou como uma espécie ameaçada, a ser protegida por uma coleção cada vez maior de leis, os patronos da causa gay tropeçam frequentemente na lógica – e se afastam, com isso, do seu objetivo central.”

“O primeiro problema sério quando se fala em ‘comunidade gay’ é que a ‘comunidade gay’ não existe. Como o restante da humanidade, os homossexuais, antes de qualquer outra coisa, são indivíduos. Têm opiniões, valores e personalidades diferentes. A tendência a olharem para si mesmos como uma classe à parte, na verdade, vai na direção exatamente contrária à sua principal aspiração – a de serem cidadãos idênticos a todos os demais.”

“Outra tentativa de considerar os gays como um grupo de pessoas especiais é a postura de seus porta-vozes quanto ao problema da violência. Imaginam-se mais vitimados pelo crime do que o resto da população; já se ouviu falar em ‘holocausto’ para descrever a sua situação. Pelos últimos números disponíveis, entre 250 e 300 homossexuais foram assassinados em 2010 no Brasil. Mas, num país onde se cometem 50.000 homicídios por ano, parece claro que o problema não é a violência contra os gays; é a violência contra todos. Os homossexuais são vítimas de arrastões em prédios de apartamentos, sofrem sequestros relâmpagos, são assaltados nas ruas e podem ser mortos com um tiro na cabeça se fizerem o gesto errado na hora do assalto  – exatamente como ocorre a cada dia com os heterossexuais; o drama real, para todos, está no fato de viverem no Brasil. E as agressões gratuitas praticadas contra os gays? Não há o menos sinal de que a imensa maioria da população aprove, e muito menos cometa, esses crimes; são frutos exclusivos da ação de delinquentes, não da sociedade brasileira.”



“Não há proveito algum para os homossexuais, igualmente, na facilidade cada vez maior com que se utiliza a palavra ‘homofobia’; em vez de significar apenas a raiva maligna diante dos homossexuais, como deveria,
passou a designar com frequência tudo o que não agrada a entidades ou militantes da ‘causa gay’. Ainda no mês de junho, na última Parada Gay de São Paulo, os organizadores disseram que ‘4 milhões’ de pessoas
tinham participado da marcha – já o instituto de pesquisas Datafolha, utilizando técnicas específicas para
esse tipo de medição, apurou que o comparecimento real foi de 270.000 manifestantes, e que apenas 65.000 fizeram o percurso até ao fim. A Folha de S.Paulo, que publicou a informação, foi chamada de ‘homofóbica’.

 “Qualquer artigo na imprensa que critique o homossexualismo é considerado ‘homofóbico’. Mas se alguém diz que não gosta de gays, ou algo parecido, não está praticando crime algum – a lei, afinal, não obriga nenhum cidadão a gostar de homossexuais, ou de espinafre, ou seja lá o que for. Na verdade, não obriga ninguém a gostar de ninguém; apenas exige que todos respeitem os direitos de todos.” 

“A mais nociva de todos as exigências, porém, é o esforço para transformar a ‘homofobia’ em crime,
conforme se discute atualmente no Congresso. Não há um único delito contra homossexuais que já não seja
punido pela legislação penal existente hoje no Brasil. Como a invenção de um novo crime poderia aumentar a segurança dos gays, num país onde 90% dos homicídios nem sequer chegam a ser julgados? A ‘criminalização da homofobia’ é uma postura primitiva do ponto de vista jurídico, aleijada na lógica e impossível de ser executada na prática.”

“Os principais defensores da ‘criminalização’ já admitiram, por sinal, que pregar contra o homossexualismo nas igrejas não seria crime, para não baterem de frente com o princípio da liberdade religiosa. Dizem, apenas, que o delito estaria na promoção do ‘ódio’. Mas o que seria essa ‘promoção’? E como descrever em lei, claramente, um sentimento como o ódio?”



José Roberto Guzzo 
Jornalista


Revista Veja. Edição 2295